Fonte:http://rizomas.net/charges-sobre-educacao.html
A reportagem da Tribuna do Norte deste domingo, revela um dado no mínimo vergonhoso: um preso custa 15 vezes mais que um aluno.
R$3,5 mil, é o valor gasto com cada preso no RN. Em contrapartida, o aluno custa aos cofres públicos apenas R$ 233,88. Esse é o preço que vale a vida de um aluno do ensino público. Um contrasenso, uma imoralidade que afeta todos nós, pois sabemos que essa irresponsabilidade gera o caos social em que vivemos. Construindo portanto, uma sociedade doente onde graça a miséria e a violência.
Mais um dado que revela as gestões criminosas de grande parcela da nossa podre classe política do nosso país.
Fonte:http://rizomas.net/charges-sobre-educacao.html
Dois homens olham pela mesma janela. Um vê a lama. O outro vê as estrelas. (Dalai Lama)
domingo, 6 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Regime Militar: a repressão política no Brasil e no Rio Grande do Norte
Durante vinte anos consecutivos, nossa cidadania foi cerceada pelo regime militar que se estabeleceu no país a partir de 1 de abril de 1964, impondo à população a censura e as eleições indiretas para presidente. Para aqueles que faziam oposição ao governo, a prisão, a tortura e o exílio se tornaram um pesadelo constante por quase duas gerações. A dor da perda da liberdade se confundia com a dor física e da separação dos entes queridos.
Um Contexto Explosivo
A década de 1960 , foi caracterizada por um forte antagonismo político entre os países inseridos no contexto da Guerra fria. Esta, norteava as relações entre a maior parte das nações e o Brasil estava alinhado aos Estado Unidos, líder do bloco capitalista que rivalizava com o bloco socialista comandado pela União Soviética na busca pela hegemonia política e econômica no mundo.
Deposto pelo golpe de 1964, o presidente do Brasil João Goulart, assumiu a presidência com os seus poderes limitados devido a resistência dos militares que o considerava socialista e portanto, alinhado com as forças de esquerda composta pelos partidos e organizações sociais que lutavam por reformas na área da educação,saúde, agrária e econômicas, objetivando a redução dos alarmantes índices de desigualdade e miséria em nosso país.
O ambiente de acirramento político e social se intensificou quando o presidente elaborou um plano de reformas de base para promover com o objetivo de reduzir os problemas existentes no país. Um conjunto de reformas que afetava diretamente os latifundiários e empresários ligados ao capital internacional, tendo em vista que a reforma agrária e fiscal estava prevista. Setores conservadores se mobilizaram sob a liderança dos militares e políticos - especialmente os membros da União Democrática Nacional ( UDN), liderada por Carlos Lacerda, governador da Guanabara – setores conservadores da Igreja católica e grandes jornais do país apoiaram o golpe, dentre eles, o jornal O Globo, acusando o presidente de promover a anarquia com suas reformas.
Deposto no dia 1 de abril, João Goulart parte para o Rio Grande do Sul, sua terra natal, para logo após seguir para o exílio no Uruguai. Começa então, os primeiros dias do regime autoritário que irá perdurá 20 anos. Uma sucessão de governos militares marcados pela repressão, censura, prisões,torturas, morte e exílios dos que ousaram discordar da ordem então estabelecida.
A Repressão Política no Brasil
estabelecido o poder militar, os militares começaram a instituir uma série de atos institucionais que visavam ampliar o poder do Executivo. O primeiro deles, elaborado por Francisco Campos, jurista que redigiu a constituição do Estado Novo em 1937, determinava que a partir de então as eleições para presidente seriam indiretas, que o chefe do executivo podia declarar estado de sítio e suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, inclusive os mandatos de legisladores federais,estaduais e municipais. Contudo, a repressão atingiu o seu auge com a publicação do Ato Institucional Número 5 ( AI5). Com este ato, os presidentes militares podiam fechar o Congresso Nacional, às assembleias estaduais e Câmaras municipais, além de decretar intervenção nas unidades da federação, inclusive nos territórios e municípios.
O AI5 representou de fato, o estabelecimento de um regime ditatorial em nosso país pois cerceava definitivamente a participação popular e gerava uma temerosa instabilidade jurídica e institucional .
A Repressão Politica no Rio Grande do Norte
No período em que foi deflagrado o golpe militar, o Rio Grande do Norte era governado por Aluízio Alves. Eleito em 1960 através de uma aliança que também elegeu o prefeito Djalma Maranhão, seu governo contava com recursos oriundos da Aliança para o Progresso, programa americano presente em diversos países da América latina.
O então governador Aluízio Alves,com o irmão do presidente Kennedy , o senador Robert Kennedy, no saguão da TN.
Com um perfil nacionalista, Djalma Maranhão que era um severo crítico da política externa americana, considerava a adesão do então governador Aluízio Alves ao programa deste país uma subserviência ao imperialismo, o que gerou um afastamento político entre os respectivos chefes dos executivos estadual e municipal.
A frente da prefeitura do Natal, Djalma Maranhão comandou o programa educacional “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”, que contava com recursos próprios e tinha como objetivo alfabetizar as crianças carentes da capital. Com um perfil nacionalista, o slogan do programa era “Escola Brasileira com Dinheiro Brasileiro”, exaltando uma característica totalmente distinta do programa do governo estadual que recebia recursos dos Estados Unidos.
O então prefeito Djalma Maranhão visitando uma das escolas do programa De Pé no Chão Também se Aprende a Ler.
Com a eclosão do golpe, o Governo do estado se manifesta a favor da ordem que se estabelecia, recomendando que a população evite participar de qualquer manifestação em defesa das instituições democráticas e, portanto, do governo deposto. Postura inversa tomou o prefeito Djalma Maranhão que de pronto manifestou apoio incondicional ao presidente João Goulart, publicado uma nota informando que a partir daquele momento a prefeitura de Natal tornava-se o “quartel-general da legalidade e da resistência”. Uma resistência meramente política, pois a sede do executivo municipal tornou-se ponto de encontro das lideranças políticas,sindicais e estudantis que se opuseram ao golpe.
Na sequência dos acontecimentos, as prisões e a tortura tomaram o cenário de medo que se estabeleceu em nosso Estado. As investigações e as perseguições partiram não apenas das Forças Armadas, mas principalmente do governo do estado que montou uma equipe sob o comando de policiais federais contratados do Estado de Pernambuco.
Sindicatos, organizações estudantis e as ligas camponesas que operavam no interior do estado foram acusadas de promover a anarquia e invasões de terras. Seus líderes foram presos, torturados e alguns, mortos. O prefeito Djalma maranhão foi deposto,preso,torturado e exilado no Uruguai onde faleceu em 30 de julho de 1971 no Uruguai.
Sua obra foi ter lutado contra o analfabetismo de milhares de crianças. Um legado que infelizmente não foi honrado por muitos dos gestores da nossa cidade Natal.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Brasil avança no desenvolvimento humano e sobe uma posição no ranking do IDH 2011
Reportagens | ||||||||||||||||
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011
31 de outubro:"Dia D", o "Dia Drummond"
31 de outubro de 1902, Itabira(MG) recebe o seu filho mais ilustre: Carlos Drumond de Andrade. Poeta brasileiro, homem do mundo. Sua sensibilidade expressa o amor e os sonhos que semeiam a vida em sua plenitude, recheada de sabores e dissabores.
Para os jesuítas do Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, portador de uma tal "insurbordinação mental"; para o modernismo, um membro, um criador. Drumond: a unanimidade reside no amor.
Para os jesuítas do Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, portador de uma tal "insurbordinação mental"; para o modernismo, um membro, um criador. Drumond: a unanimidade reside no amor.
domingo, 30 de outubro de 2011
Juscelino Kubitschek
Mineiro, nascido no dia 12 de setembro de 1912, Juscelino Kubitschek de Oliveira governou o Brasil embalado pela política desenvolvimentista, promoveu a industria e os sonhos de milhões de brasileiros. Em sua mente, um desejo que se materializa numa nova capital, Brasília. Projeto audacioso e dispendioso, mas necessário.
E veio o golpe de 64, e sua política desenvolvimentista não era bem vinda. Logo surge o exílio, a angústia e a solidão em Nova York e depois Paris. Seu legado é maior que Brasília. Deixa mais que uma cidade: fica o legado de um líder que ousou transformar de fato o nosso país.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Redescobrindo a Segunda Guerra
Vídeos do Natgeo com imagens da Segunda Guerra Mundial. Documentário Redescobrindo a Segunda Guerra.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Os Gurus, as eleições e as redes sociais.
Sinceramente, falar em vitória de um ou de outro candidato hoje é considerar a população massa de manobra de grupos políticos. Muita coisa vem mudando... a net tem um longo caminho a percorrer, mas já faz alguns estragos nessa velha e moribunda forma de fazer política em nosso Estado, refém das desgastadas oligarquias.
Estamos em outubro de 2011 e muitos analistas políticos já fazem previsão a cerca das eleições estaduais de 2014. Aqui em nosso estado, alguns deles dão como certa a vitória da senhora Rosalba. Segundo eles, a mandatária está se articulando magnificamente bem com os Alves Garibald e Henrique. Aliados da presidente Dilma em Brasilia e do senhor José Agripino aqui em nosso Estado, líder da oposição raivosa ao governo federal.
Sabemos que uma parcela significativa da nossa população não percebe os arranjos políticos das nossas oligarquias que se perpetuam no poder através dos macanismos de dominação como a posse vergonhosa de toda a mídia e sucateamento da educação pública. Contudo, subestimar a atuação de milhares de cidadãos nas redes sociais e nas ruas de nossas cidades, a exemplo do #foramicarla e o #levantedoelefante, é não perceber um processo que pode levar significativa parcela da população ao patamar de protagonista efetivo do jogo político.
Esse novo contexto é fundamental para a construção de uma democracia comprometida com a justiça social, ética e probidade na gestão pública. Uma nova realidade que buscará antes de mais nada combater as desavergonhadas práticas políticas predominantes em nosso país e ,especialmente, no nosso Estado, Onde políticos carreiristas fazem alianças absurdamente incoerentes a primeira vista,mas que se enquadram perfeitamente no jogo descarado que perpetua famílias oligárquicas no poder há décadas. A exemplo dos alves e maias.
Portanto, apesar do processo de interação e mobilização das pessoas nas redes sociais e nas ruas não influenciar atualmente de forma dicisiva no processo eleitoral, é importante verificar que esse contexto vem se modificando a medida que cresce a passoas largos o acesso a internet e o surgimento de novas ferramentas que facilitam a divulgação da informação para um número cada vez maior de pessoas, criando novos hábitos e uma nova cultura que fatalmente contribuirá no combate ao monopólio alienante da grande mídia, que está nas mãos daqueles que simbolizam o atraso e a miséria em nosso país.
Sejamos complacentes com os gurus que fazem previsão, sem obviamente leva-los a sério.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
O odor da revista Veja no debate sobre as humanidades no Ensino Médio
Fonte: www.cartapotiguar.com.br
A equipe de educação do governador Alckmin fez reacender o debate, que parecia já encerrado, sobre a importância da filosofia no ensino médio. Isso ocorreu porque tal equipe resolveu anunciar que iria diminuir as aulas de português e matemática nos últimos anos da escola, aumentando as de humanidades e de ciências físicas e naturais. Rapidamente o senso comum conservador reclamou. E como no tempo anterior ao da aprovação da obrigatoriedade da filosofia e sociologia no ensino médio, os mesmos meios de comunicação que acreditam que o ensino deve ficar como está acionaram seus jornalistas para que estes agissem como cães de guarda do status quopedagógico. E eles de fato vociferaram e rosnaram.
A idéia básica dos setores conservadores é típica do século XIX. E em um aparente paradoxo ela espelha, em parte, um desejo expresso de Marx, defendido nos reuniões da I Internacional: que a escola pública não tenha matérias sujeitas a “controvérsias”, como Filosofia, Sociologia e coisas do tipo. Seguindo o clima de seu tempo, o de vitória do positivismo, Marx entendia que a escola pública deveria limitar-se ao ensino das ciências “não controversas”, aliando tal coisa ao que chamou de “ensino politécnico”. No Brasil de hoje, quem defende uma proposta parecida, seguindo esses dois itens, são justamente os setores que mais demonstram ódio a Marx. Aliás, são setores que acham que a escola pode escapar de ideologias e, ao mesmo tempo, são os que mais ideologizam um debate político que caberia bem menos bravatas. A revista Veja reúne esses setores que, nas últimas eleições, dirigiu a plataforma de política educacional de José Serra (em Filosofia e história da educação brasileira (Manole, 2008) escrevi que esse pessoal, capitaneado pelo falecido Paulo Renato, formava um Partido da Tecnocracia Educacional).
O erro do senso comum conservador não é somente o de seguir Marx e o século XIX. Eles, os conservadores, estão equivocados porque não percebem o que é e o que não é útil para o país em termos de ensino médio para o Brasil atual. E isso em detrimento dos próprios interesses que eles imaginam defender, que é o do empresariado brasileiro (que, aliás, prefere Lula e Dilma, não a direita política!).
Eis os dois pontos no qual o senso comum conservador escorrega.
Primeiro. Fala-se muito no Brasil em ensino profissionalizante. Mas teima-se em acreditar que tal ensino se resume às disciplinas Matemática e Português, ou mesmo Química ou Física. Não se percebe que em um país em que o setor de serviços cresce a passos largos, como o que ocorre no Brasil, um curso profissionalizante é aquele que tiver a grade curricular a mais harmônica possível. Podemos saber matemática, mas é bom que saibamos interpretar bem um filme e que possamos ter gosto em acompanhar as resenhas de livros nos jornais. Não é o professor de Português que faz isso. Não é o de Matemática. Quem faz isso são os professores de humanidades.
Segundo. Fala-se em melhoria da compreensão de questões e problemas por parte da juventude brasileira, cuja falha em leitura é visível nos exames internacionais (por exemplo, os do PISA). Não se percebe, no entanto, que são disciplinas como Filosofia, Sociologia, Geografia e História que permitem ao aluno resolver melhor os problemas das matemáticas e ciências, uma vez que as disciplinas humanísticas melhoram o estudante no quesito leitura. Aliás, ajudam em muito, também, a capacidade de compreensão de conceitos por parte do alunado – o que é fundamental para a resolução de problemas de forma não mecânica.
Por esses dois parágrafos acima, o que se pode concluir é que qualquer reforma que venha a tratar o ensino médio público e particular como o local não de especializações precoces, mas como a casa de ampliação da cultura geral pré-universitária, está basicamente correta. Os conservadores não conseguem entender isso. Eles, como Marx, ficaram no século XIX. Confundem a ampliação cultural do jovem com o seu engajamento ideológico. Nisso, imitam uma mentalidade que não é liberal-conservadora, mas própria, sim, de ditadores. Os liberais autênticos nunca tiveram medo da esquerda. Quem ataca a esquerda com esse tipo de medo sem fundamento são os fascistas. Pois só o fascismo alimenta o comunismo, em geral imaginariamente. Sempre foi assim, não só no Brasil. Aliás, no Brasil vivemos isso hoje, de uma forma mais caricaturesca que no passado. O Muro de Berlim caiu e a URSS não existe mais faz tempo, mas a revista Veja tenta não lidar com isso realisticamente. Essa revista, como os generais da Ditadura Militar, vê comunismo em todo canto. Só que agora não há comunismo em canto nenhum do mundo!
Como a revista Veja e seus cúmplices podem ver comunismo no Brasil? O PC do B cogita lançar Netinho candidato à prefeitura de São Paulo. Netinho bate em mulher e dança umas coisas esquisitas, duvido que esteja pensando na “socialização dos meios de produção”. A revista Veja vê marxismo na universidade pública. Onde? Um dos únicos marxistas da universidade é Sader que, como se sabe, disse em um Fórum Social Mundial que é na Bolívia que está a utopia dos trabalhadores. Qual jovem trabalhador no Brasil gostaria de pensar numa utopia que fosse a Bolívia? Ora bolas! Não contente, a Revista Veja diz também que há seguidores de Paulo Freire no Brasil que querem fazer de crianças do MST perigosos comunistinhas. Ora, os acampamentos do MST possuem antes famintos que comunistas. Aliás, estranho movimento este que, para ser comunista, quer que todos tenham propriedade privada!
Os brasileiros jovens adoram a liberdade. Nosso povo sempre gostou da liberdade. Para alguns universitários, Cuba parece ainda ser algo encantado não por qualquer coisa que tenha a ver com o socialismo, mas única e exclusivamente porque todo jovem procura algo diferente. Mas o número de jovens que idolatra Cuba, hoje, em cada universidade pública, cabe num Novo Fiat UNO.
Os jovens brasileiros de hoje, mesmo os que ainda professam um discurso anti-americanista, reclamam do liberalismo porque o tomam como sendo antes o de Reagan e Thatcher, que cerrou fileiras em torno de um individualismo mesquinho, que propriamente o libertarismo de Robert Nozick, que terminou (injustamente) como responsável filosófico por esses governos de direita. Os jovens de hoje, no Brasil, estão bem dispostos a seguir uma doutrina que promova certa igualdade social e ao mesmo tempo respeite as diferenças individuais e a liberdade, como é o caso do liberalismo de John Rawls. É claro que esses jovens ainda não conhecem bem Rawls. Mas, conhecendo-o, irão simplesmente esquecer o velho liberalismo social europeu ou mesmo a social democracia européia, que a geração que foi jovem nos anos 80 idolatrou estudando os debates entre Norberto Bobbio e o eurocomunismo. As enquetes mostram isso. O jovem brasileiro, cada vez mais, tem afinado suas aspirações políticas na direção dos que defendem a compatibilidade entre igualdade social e respeito às liberdades individuais. Não à toa muitos candidatos têm dito que são partidários de um tipo de “liberalismo social” ou de “socialismo liberal” ou, enfim, de algum tipo de “democracia participativa liberal”.
Claro, claro, talvez o grupinho da Revista Veja e os que circulam em torno dela tenham ódio de qualquer tipo de liberalismo que tente harmonizar liberdade e igualdade. Talvez eles falem em defesa irrestrita da liberdade, citando Locke, embora, na parede de seus escritórios, mantenham fotos de Pichochet, Médici, Videla, Franco, Salazar e … cuidado, podemos até achar algumas coisas piores em tais paredes! Locke? Nunca! Falam “Locke” da boca para fora.
Assim, esse tipo de gente que, no frigir dos ovos alimenta a imobilidade de nosso sistema educacional, tinha mesmo de chiar contra a reforma que, paradoxalmente, veio do interior do governo Alckmin. Fez isso. Tentou e tenta intimidar o governador. E com isso jogou contra o governador paulista naquilo que ele poderia se apresentar menos à direita, para disputas de pleitos futuros. A revista Veja prefere ter um candidato à direita que ver um candidato seu ganhar a eleição. Fez isso com Serra, fez agora com Alckmin. Um governador que tem como aliado a Veja não precisa de inimigos.
PS: No momento em que escrevo, não há decisão sobre as reformas. A revista Veja quer punir o secretário de Educação de Alckmin, jogando fala do governador, que apenas pondera, contra ele. Veja aqui o Estadão falando do assunto.
Publicado originalmente em Paulo Ghiraldelli Jr. Blog do Filósofo
Por Paulo Ghiraldelli Jr
(Filósofo, escritor e professor da UFRRJ)
A equipe de educação do governador Alckmin fez reacender o debate, que parecia já encerrado, sobre a importância da filosofia no ensino médio. Isso ocorreu porque tal equipe resolveu anunciar que iria diminuir as aulas de português e matemática nos últimos anos da escola, aumentando as de humanidades e de ciências físicas e naturais. Rapidamente o senso comum conservador reclamou. E como no tempo anterior ao da aprovação da obrigatoriedade da filosofia e sociologia no ensino médio, os mesmos meios de comunicação que acreditam que o ensino deve ficar como está acionaram seus jornalistas para que estes agissem como cães de guarda do status quopedagógico. E eles de fato vociferaram e rosnaram.
A idéia básica dos setores conservadores é típica do século XIX. E em um aparente paradoxo ela espelha, em parte, um desejo expresso de Marx, defendido nos reuniões da I Internacional: que a escola pública não tenha matérias sujeitas a “controvérsias”, como Filosofia, Sociologia e coisas do tipo. Seguindo o clima de seu tempo, o de vitória do positivismo, Marx entendia que a escola pública deveria limitar-se ao ensino das ciências “não controversas”, aliando tal coisa ao que chamou de “ensino politécnico”. No Brasil de hoje, quem defende uma proposta parecida, seguindo esses dois itens, são justamente os setores que mais demonstram ódio a Marx. Aliás, são setores que acham que a escola pode escapar de ideologias e, ao mesmo tempo, são os que mais ideologizam um debate político que caberia bem menos bravatas. A revista Veja reúne esses setores que, nas últimas eleições, dirigiu a plataforma de política educacional de José Serra (em Filosofia e história da educação brasileira (Manole, 2008) escrevi que esse pessoal, capitaneado pelo falecido Paulo Renato, formava um Partido da Tecnocracia Educacional).
O erro do senso comum conservador não é somente o de seguir Marx e o século XIX. Eles, os conservadores, estão equivocados porque não percebem o que é e o que não é útil para o país em termos de ensino médio para o Brasil atual. E isso em detrimento dos próprios interesses que eles imaginam defender, que é o do empresariado brasileiro (que, aliás, prefere Lula e Dilma, não a direita política!).
Eis os dois pontos no qual o senso comum conservador escorrega.
Primeiro. Fala-se muito no Brasil em ensino profissionalizante. Mas teima-se em acreditar que tal ensino se resume às disciplinas Matemática e Português, ou mesmo Química ou Física. Não se percebe que em um país em que o setor de serviços cresce a passos largos, como o que ocorre no Brasil, um curso profissionalizante é aquele que tiver a grade curricular a mais harmônica possível. Podemos saber matemática, mas é bom que saibamos interpretar bem um filme e que possamos ter gosto em acompanhar as resenhas de livros nos jornais. Não é o professor de Português que faz isso. Não é o de Matemática. Quem faz isso são os professores de humanidades.
Segundo. Fala-se em melhoria da compreensão de questões e problemas por parte da juventude brasileira, cuja falha em leitura é visível nos exames internacionais (por exemplo, os do PISA). Não se percebe, no entanto, que são disciplinas como Filosofia, Sociologia, Geografia e História que permitem ao aluno resolver melhor os problemas das matemáticas e ciências, uma vez que as disciplinas humanísticas melhoram o estudante no quesito leitura. Aliás, ajudam em muito, também, a capacidade de compreensão de conceitos por parte do alunado – o que é fundamental para a resolução de problemas de forma não mecânica.
Por esses dois parágrafos acima, o que se pode concluir é que qualquer reforma que venha a tratar o ensino médio público e particular como o local não de especializações precoces, mas como a casa de ampliação da cultura geral pré-universitária, está basicamente correta. Os conservadores não conseguem entender isso. Eles, como Marx, ficaram no século XIX. Confundem a ampliação cultural do jovem com o seu engajamento ideológico. Nisso, imitam uma mentalidade que não é liberal-conservadora, mas própria, sim, de ditadores. Os liberais autênticos nunca tiveram medo da esquerda. Quem ataca a esquerda com esse tipo de medo sem fundamento são os fascistas. Pois só o fascismo alimenta o comunismo, em geral imaginariamente. Sempre foi assim, não só no Brasil. Aliás, no Brasil vivemos isso hoje, de uma forma mais caricaturesca que no passado. O Muro de Berlim caiu e a URSS não existe mais faz tempo, mas a revista Veja tenta não lidar com isso realisticamente. Essa revista, como os generais da Ditadura Militar, vê comunismo em todo canto. Só que agora não há comunismo em canto nenhum do mundo!
Como a revista Veja e seus cúmplices podem ver comunismo no Brasil? O PC do B cogita lançar Netinho candidato à prefeitura de São Paulo. Netinho bate em mulher e dança umas coisas esquisitas, duvido que esteja pensando na “socialização dos meios de produção”. A revista Veja vê marxismo na universidade pública. Onde? Um dos únicos marxistas da universidade é Sader que, como se sabe, disse em um Fórum Social Mundial que é na Bolívia que está a utopia dos trabalhadores. Qual jovem trabalhador no Brasil gostaria de pensar numa utopia que fosse a Bolívia? Ora bolas! Não contente, a Revista Veja diz também que há seguidores de Paulo Freire no Brasil que querem fazer de crianças do MST perigosos comunistinhas. Ora, os acampamentos do MST possuem antes famintos que comunistas. Aliás, estranho movimento este que, para ser comunista, quer que todos tenham propriedade privada!
Os brasileiros jovens adoram a liberdade. Nosso povo sempre gostou da liberdade. Para alguns universitários, Cuba parece ainda ser algo encantado não por qualquer coisa que tenha a ver com o socialismo, mas única e exclusivamente porque todo jovem procura algo diferente. Mas o número de jovens que idolatra Cuba, hoje, em cada universidade pública, cabe num Novo Fiat UNO.
Os jovens brasileiros de hoje, mesmo os que ainda professam um discurso anti-americanista, reclamam do liberalismo porque o tomam como sendo antes o de Reagan e Thatcher, que cerrou fileiras em torno de um individualismo mesquinho, que propriamente o libertarismo de Robert Nozick, que terminou (injustamente) como responsável filosófico por esses governos de direita. Os jovens de hoje, no Brasil, estão bem dispostos a seguir uma doutrina que promova certa igualdade social e ao mesmo tempo respeite as diferenças individuais e a liberdade, como é o caso do liberalismo de John Rawls. É claro que esses jovens ainda não conhecem bem Rawls. Mas, conhecendo-o, irão simplesmente esquecer o velho liberalismo social europeu ou mesmo a social democracia européia, que a geração que foi jovem nos anos 80 idolatrou estudando os debates entre Norberto Bobbio e o eurocomunismo. As enquetes mostram isso. O jovem brasileiro, cada vez mais, tem afinado suas aspirações políticas na direção dos que defendem a compatibilidade entre igualdade social e respeito às liberdades individuais. Não à toa muitos candidatos têm dito que são partidários de um tipo de “liberalismo social” ou de “socialismo liberal” ou, enfim, de algum tipo de “democracia participativa liberal”.
Claro, claro, talvez o grupinho da Revista Veja e os que circulam em torno dela tenham ódio de qualquer tipo de liberalismo que tente harmonizar liberdade e igualdade. Talvez eles falem em defesa irrestrita da liberdade, citando Locke, embora, na parede de seus escritórios, mantenham fotos de Pichochet, Médici, Videla, Franco, Salazar e … cuidado, podemos até achar algumas coisas piores em tais paredes! Locke? Nunca! Falam “Locke” da boca para fora.
Assim, esse tipo de gente que, no frigir dos ovos alimenta a imobilidade de nosso sistema educacional, tinha mesmo de chiar contra a reforma que, paradoxalmente, veio do interior do governo Alckmin. Fez isso. Tentou e tenta intimidar o governador. E com isso jogou contra o governador paulista naquilo que ele poderia se apresentar menos à direita, para disputas de pleitos futuros. A revista Veja prefere ter um candidato à direita que ver um candidato seu ganhar a eleição. Fez isso com Serra, fez agora com Alckmin. Um governador que tem como aliado a Veja não precisa de inimigos.
PS: No momento em que escrevo, não há decisão sobre as reformas. A revista Veja quer punir o secretário de Educação de Alckmin, jogando fala do governador, que apenas pondera, contra ele. Veja aqui o Estadão falando do assunto.
Publicado originalmente em Paulo Ghiraldelli Jr. Blog do Filósofo
sábado, 15 de outubro de 2011
Vídeo com alguns pensamentos do Rubem Alves sobre a construção do processo educacional.
Ideias distantes da realidade, dizem alguns - e não sem motivos diante do caos em que se encontra as escolas e o dia dia do professor - ; perfeitamente possível, dizem outros, com milhares de motivos para pensar assim, pois suas vitórias não são poucas. Em fim, sejamos sujeitos pensantes da nossa praxis, com uma dose de pessimismo diante do contexto em que vivemos, mas inevitavelmente otimista para lutarmos em busca de novas e imprescidiveis conquistas e atingirmos, de forma ampla e eficaz, a nossa honrada meta de EDUCAR.
Feliz dia do professor!!
Ideias distantes da realidade, dizem alguns - e não sem motivos diante do caos em que se encontra as escolas e o dia dia do professor - ; perfeitamente possível, dizem outros, com milhares de motivos para pensar assim, pois suas vitórias não são poucas. Em fim, sejamos sujeitos pensantes da nossa praxis, com uma dose de pessimismo diante do contexto em que vivemos, mas inevitavelmente otimista para lutarmos em busca de novas e imprescidiveis conquistas e atingirmos, de forma ampla e eficaz, a nossa honrada meta de EDUCAR.
Feliz dia do professor!!
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
De pé No Chão Também se Aprende a Ler
Djalma Maranhão, potiguar que liderou o movimento educacional De Pé no Chão Também se Aprende a ler, foi o primeiro prefeito de Natal eleito pelo voto direto em 1960. Governou, liderou, fez, transformou e foi preso por defender os mais pobres, o povo, em 1964 com o golpe militar. Morreu no Uruguai, exilado,desterrado pelo regime que o perseguiu.
Este vídeo, emociona pelo que foi a sua gestão, pela campanha que foi empreendida e pelas imagens de uma Natal que não exista mais.
Este vídeo, emociona pelo que foi a sua gestão, pela campanha que foi empreendida e pelas imagens de uma Natal que não exista mais.
sábado, 8 de outubro de 2011
O Brasil na Segunda Guerra Mundial
A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial é o tema do documentário nos vídeos abaixo. O Prof. Dr. Dennison de Oliveira do Departamento de História da UFPR, comenta o contexto em que o Brasil se inseriu na Guerra: as relações políticas e comerciais com a Alemanha e os países aliados, o ambiente político interno do nosso país também é abordado.
O prof. Dennison de Oliveira é autor de dois livros :"Os soldados alemães de Vargas" e "Os soldados brasileiros de Hitler", ambos lançados em 2008 pela Editora Juruá.
O prof. Dennison de Oliveira é autor de dois livros :"Os soldados alemães de Vargas" e "Os soldados brasileiros de Hitler", ambos lançados em 2008 pela Editora Juruá.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Texto do sociólogo Emir sader sobre a direita brasileira.
Fonte: teoria e DebateO Zé Dirceu realmente existente
A guerra fria deixou a boca da direita torta. Se acostumou à diabolização de adversários, para tentar passar como agente do bem. Afinal o discurso dos EUA foi construído – e seria impossível sem esse mecanismo – na diabolização de Stalin, Fidel, Hugo Chávez, Saddam Hussein, Ahmadinejad.
A direita local seguiu os mesmos passos: Getúlio era seu grande diabo. Populista, ditatorial, corrupto, criptocomunista etc. eram os epítetos. O mais vetusto dos jornalões paulista cunhou a expressão: petebo-castro-comunista para caracterizar o moderado governo de João Goulart.
Nos tempos de Lula, a direita brasileira ficou desconcertada. Seu xodó, o homem mais bem preparado para dirigir o Brasil – e talvez o mundo – tinha fracassado, saía do governo enxotado pelo povo e seus eventuais sucessores perderam três eleições seguidas, enquanto ele se consagrava como o político de maior rejeição no país – rejeitado até por seu partido na última campanha eleitoral.
Impossibilitada de exaltar suas proezas, a direita se dedicou à diabolização dos adversários: os fantasmas de Lula e do PT foram alvos privilegiados, como os que os tinham desalojado do governo e ameaçam prolongar seus mandatos por longo tempo. Haveria que cortar o mal pela raiz.
Se Carlos Lacerda, seu corvo queridinho de outros tempos, tinha dito de JK que não poderia ser candidato, se fosse não poderia ganhar, se ganhasse não poderia tomar posse, a direita renovada nas siglas, mas não em seu arsenal, reiterou as mesmas afirmações sobre Lula e o PT.
Essa direita de DNA golpista armou o mais bem-sucedido projeto de marketing com o “mensalão”, que chegou a incutir na mente de muita gente que políticos entravam todos os meses no Palácio do Planalto munidos de uma mala, entravam em salas contíguas à do presidente da República e saíam com malas cheias de dinheiro. Uma imagem que até hoje não encontrou confirmação na realidade, mas o que conta não é o que aconteceu, mas a narrativa e a imaginação que provocou, acionada pelo impressionismo midiático. O que conta não é o fato, mas a versão – na ditadura da mídia brasileira.
Não conseguiram derrubar Lula, com medo da capacidade de mobilização popular dele, trataram de fazer com que o governo sangrasse, sem recursos para suas políticas econômicas, mas fracassaram. Sua sanha voltou-se contra quem representava, por sua trajetória e liderança política, o PT: José Dirceu. Seu ódio de classe tomou o PT como seu nome diz: o Partido dos Trabalhadores. Na sua ânsia de sangue, um dos seus mais conspícuos representantes – governador biônico do mais sangrento ditador brasileiro – confessou publicamente o que as elites dizem em privado: queriam ficar livres “dessa raça” por trinta anos. Tentavam realizar o que outro prócer da ditadura tinha dito: “Um dia o PT tem de ganhar, fracassar, e aí deixar a gente dirigir com calma este país”.
José Dirceu pagou a encarnação do PT que sua trajetória representa. O ódio de classe se abateu sobre ele, como vingança contra o PT, pelo que esse partido os fazia sofrer. Como todo processo de diabolização, tiveram de reconstruir uma imagem do diabo conforme suas necessidades midiáticas. José Dirceu não era o líder estudantil da luta contra a ditadura, não era o preso salvo da prisão pela troca pelo embaixador norte-americano, não era o militante clandestino que viveu anos disfarçado para enfrentar o regime que eles ajudaram a se instaurar e apoiaram, não era o grande dirigente que liderou a construção do PT como partido nacional.
Era um diabólico articulador do assalto ao Estado por parte de sindicalistas, burocratas partidários, sedentos de apropriar-se das empresas estatais, dos recursos do Orçamento, de cargos e prebendas governamentais. Era o modelo acabado da criminalização do Estado, bandeira maior do neoliberalismo. Foi esse José Dirceu que eles condenaram, cassando seu mandato em nome da moralidade da Tia Zulmira – tão bem retratada pelo maior cronista da ditadura e da direita, Stanislaw Ponte Preta.
Para recompor a imagem real de dirigente político de José Dirceu, leiam seu livro de artigos. Tempos de Planície recolhe textos seus sobre temas tão diversos, como reforma política, comunicação e mídia, políticas econômicas, o Brasil no mundo, o papel de um partido como o PT e a função da esquerda hoje no Brasil, entre tantos outros. Pode-se discordar ou não, mas uma atitude política, democrática, pluralista requer o tratamento de um dirigente político como defensor de ideias e da sua prática concreta, e não sua diabolização, pobre instrumento de disputa com que a direita brasileira se contentou e tem sido fragorosamente derrotada. Ao contrário do que desejavam, o “mensalão” se voltou contra a direita, que acreditou que controlava a opinião do povo brasileiro e tem sido continua vítima dessa ilusão até hoje. Aquela vitória de Pirro preparou todas as suas derrotas posteriores.
No livro José Dirceu expressa com clareza as posições que hoje caracterizam a esquerda realmente existente, essa que soube construir um bloco hegemônico de forças que busca, nas condições concretas da pesada herança neoliberal, superar esse modelo mercantilizado.
A leitura dos artigos permite acompanhar mais concretamente, em cada conjuntura, os dilemas da esquerda e as alternativas que têm diante de si, que no essencial são as mesmas de hoje: ruptura com a hegemonia do capital financeiro, implementação plena de um modelo de desenvolvimento com distribuição de renda – como reafirma José Dirceu no correr das páginas.
Mas é mais fácil diabolizá-lo do que discutir suas ideias e propostas. Como não podem combater o dirigente de esquerda realmente existente, tentaram destruir o espantalho que construíram. O livro apresenta o José Dirceu de corpo inteiro, como militante da esquerda, analítico e propositivo. Ler e debater suas ideias é estar no centro da agenda e das alternativas da esquerda brasileira. No Planalto e na planície.
Emir Sader é sociólogo e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
A direita local seguiu os mesmos passos: Getúlio era seu grande diabo. Populista, ditatorial, corrupto, criptocomunista etc. eram os epítetos. O mais vetusto dos jornalões paulista cunhou a expressão: petebo-castro-comunista para caracterizar o moderado governo de João Goulart.
Nos tempos de Lula, a direita brasileira ficou desconcertada. Seu xodó, o homem mais bem preparado para dirigir o Brasil – e talvez o mundo – tinha fracassado, saía do governo enxotado pelo povo e seus eventuais sucessores perderam três eleições seguidas, enquanto ele se consagrava como o político de maior rejeição no país – rejeitado até por seu partido na última campanha eleitoral.
Impossibilitada de exaltar suas proezas, a direita se dedicou à diabolização dos adversários: os fantasmas de Lula e do PT foram alvos privilegiados, como os que os tinham desalojado do governo e ameaçam prolongar seus mandatos por longo tempo. Haveria que cortar o mal pela raiz.
Se Carlos Lacerda, seu corvo queridinho de outros tempos, tinha dito de JK que não poderia ser candidato, se fosse não poderia ganhar, se ganhasse não poderia tomar posse, a direita renovada nas siglas, mas não em seu arsenal, reiterou as mesmas afirmações sobre Lula e o PT.
Essa direita de DNA golpista armou o mais bem-sucedido projeto de marketing com o “mensalão”, que chegou a incutir na mente de muita gente que políticos entravam todos os meses no Palácio do Planalto munidos de uma mala, entravam em salas contíguas à do presidente da República e saíam com malas cheias de dinheiro. Uma imagem que até hoje não encontrou confirmação na realidade, mas o que conta não é o que aconteceu, mas a narrativa e a imaginação que provocou, acionada pelo impressionismo midiático. O que conta não é o fato, mas a versão – na ditadura da mídia brasileira.
Não conseguiram derrubar Lula, com medo da capacidade de mobilização popular dele, trataram de fazer com que o governo sangrasse, sem recursos para suas políticas econômicas, mas fracassaram. Sua sanha voltou-se contra quem representava, por sua trajetória e liderança política, o PT: José Dirceu. Seu ódio de classe tomou o PT como seu nome diz: o Partido dos Trabalhadores. Na sua ânsia de sangue, um dos seus mais conspícuos representantes – governador biônico do mais sangrento ditador brasileiro – confessou publicamente o que as elites dizem em privado: queriam ficar livres “dessa raça” por trinta anos. Tentavam realizar o que outro prócer da ditadura tinha dito: “Um dia o PT tem de ganhar, fracassar, e aí deixar a gente dirigir com calma este país”.
José Dirceu pagou a encarnação do PT que sua trajetória representa. O ódio de classe se abateu sobre ele, como vingança contra o PT, pelo que esse partido os fazia sofrer. Como todo processo de diabolização, tiveram de reconstruir uma imagem do diabo conforme suas necessidades midiáticas. José Dirceu não era o líder estudantil da luta contra a ditadura, não era o preso salvo da prisão pela troca pelo embaixador norte-americano, não era o militante clandestino que viveu anos disfarçado para enfrentar o regime que eles ajudaram a se instaurar e apoiaram, não era o grande dirigente que liderou a construção do PT como partido nacional.
Era um diabólico articulador do assalto ao Estado por parte de sindicalistas, burocratas partidários, sedentos de apropriar-se das empresas estatais, dos recursos do Orçamento, de cargos e prebendas governamentais. Era o modelo acabado da criminalização do Estado, bandeira maior do neoliberalismo. Foi esse José Dirceu que eles condenaram, cassando seu mandato em nome da moralidade da Tia Zulmira – tão bem retratada pelo maior cronista da ditadura e da direita, Stanislaw Ponte Preta.
Para recompor a imagem real de dirigente político de José Dirceu, leiam seu livro de artigos. Tempos de Planície recolhe textos seus sobre temas tão diversos, como reforma política, comunicação e mídia, políticas econômicas, o Brasil no mundo, o papel de um partido como o PT e a função da esquerda hoje no Brasil, entre tantos outros. Pode-se discordar ou não, mas uma atitude política, democrática, pluralista requer o tratamento de um dirigente político como defensor de ideias e da sua prática concreta, e não sua diabolização, pobre instrumento de disputa com que a direita brasileira se contentou e tem sido fragorosamente derrotada. Ao contrário do que desejavam, o “mensalão” se voltou contra a direita, que acreditou que controlava a opinião do povo brasileiro e tem sido continua vítima dessa ilusão até hoje. Aquela vitória de Pirro preparou todas as suas derrotas posteriores.
No livro José Dirceu expressa com clareza as posições que hoje caracterizam a esquerda realmente existente, essa que soube construir um bloco hegemônico de forças que busca, nas condições concretas da pesada herança neoliberal, superar esse modelo mercantilizado.
A leitura dos artigos permite acompanhar mais concretamente, em cada conjuntura, os dilemas da esquerda e as alternativas que têm diante de si, que no essencial são as mesmas de hoje: ruptura com a hegemonia do capital financeiro, implementação plena de um modelo de desenvolvimento com distribuição de renda – como reafirma José Dirceu no correr das páginas.
Mas é mais fácil diabolizá-lo do que discutir suas ideias e propostas. Como não podem combater o dirigente de esquerda realmente existente, tentaram destruir o espantalho que construíram. O livro apresenta o José Dirceu de corpo inteiro, como militante da esquerda, analítico e propositivo. Ler e debater suas ideias é estar no centro da agenda e das alternativas da esquerda brasileira. No Planalto e na planície.
Emir Sader é sociólogo e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Última Entrevista a Paulo Freire
O educador Paulo Freire teria completado 90 anos no dia 19 de setembro. Homem de luta, sujeito transformador do seu tempo e da sua História. Como todos nós, mas numa amplitue infinitamente maior do que a maioria dos seus contemporâneos.
Conhecedor da realidade social e política do seu país, defendeu a inserção do homem para transformar a realidade em que ele vive, rejeitando o discurso fatalista dos setores reacionários de que a realidade tal como se encontra, caracterizada pela fome e miséria de uma parcela do nosso povo, seja algo natural.
Nas esquinas das favelas, em meio ao caos da miséria, Paulo Freire se encontra com Cristo e reforça sua fé. Uma fé que o coloca na condição de camarada do filho de Deus, uma parceria em busca de justiça e humanização, revertendo o processo de distorsão da busca humana de ser mais que gera a desumanização.
Em tempos de mentiras e violência, promovidos pela mídia, que tenta criminalizar os movimentos sociais, o pensamento de Paulo Freire nos mobiliza e fortalece, pois o direito à luta é sagrado, e criminoso são eles que no poder estão e usam a força para enganar o povo e escravizar o cidadão.
Revistas e pseudo-especialistas em educação, agridem o professor e mentem para a população. Todos eles estão, vergonhosamente, a serviço do patrão, que nada buscam de melhoria , mas apenas satisfazem os interesses mais espúrios do CAPITAL, privatizando a educação.
sábado, 1 de outubro de 2011
O Beijo na Times Square
Times Square, 14 de agosto de 1945, o mundo em fim dá adeus a Segunda guerra Mundial. Um marinheiro e uma enfermeira celebram o momento com um beijo. A estupidês humana cede lugar a alegria e a vida, e a esperança renasce no caos do pós-guerra.
Apesar do ódio que brota no coração de muitos homens o amor sempre sobrepujará, para que a paz não seja uma mera utopia e a busca por um mundo mais igualitário se mantenha viva especialmente nas futuras gerações.
Edith Shain, morreu em 23 de junho de 2010 aos 91 anos de idade. Glenn McDuffie, o fogoso marinheiro, hoje está com 83 anos.
fotógrafo: Alfred Eisenstaedt
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Professores são agredidos no Ceará
Quando a sandice e a mente ladina dos que estão no poder agem contra aqueles que lutam por um país digno, o sangue é o símbolo e a arma contra a tirania e a indecência da nossa classe política, do nosso judiciário que muitas vezes nos envergonha e da sociedade alienada que não percebe o grilhão que a aprisiona.
Vergonha!!!!!!!!!
domingo, 18 de setembro de 2011
A experiência educacional da Finlândia
É doce falar sobre a Finlândia quando o assunto é educação. Esse país, na boca dos gestores que tanto desvalorizam a nossa educação e profissão, é um exemplo a ser seguido. Contudo, prefeitos, governadores e congêneres estariam mesmo dispostos a seguir o exemplo da Finlândia? creio que não!
Falta seriedade, honestidade e compromisso para tanto. Ou não? vejamos se a nossa classe política estaria disposta a fazer o que este país nórdico fez.
AUGUSTE, Byron; KIHN, Paul; MILLER, Matt. Closing the talent gap: attracting and retaining top-third graduates to careers in teaching. An international and market research-based perspective. McKinsey & Company, 2010.
ORGANIZATION FOR ECONOMIC COOPERATION AND DEVELOPMENT. Finland: slow and steady reform for consistently high results. In: Strong performers and successful reformers in education: lessons from PISA for the United States. OCDE, 2010.
MINISTRY OF EDUCATION. Education and research: 2007-2012 Development Plan. Disponível em http://www.minedu.fi/export/sites/default/OPM/Julkaisut/2008/liitteet/opm 11.pdf
EMBAIXADA DA FINLÂNDIA. Info Finlândia. Disponível em http://www.finlandia.org.br/public/default.aspx? nodeid=36443&contentlan=17&culture=pt-BR
Consultoria Legislativa, 15 de julho de 2011.
Falta seriedade, honestidade e compromisso para tanto. Ou não? vejamos se a nossa classe política estaria disposta a fazer o que este país nórdico fez.
Conheça neste texto a bem sucedida experiência educacional da Finlândia, que tem no ensino público um dos segredos de seu desenvolvimento. Esse estudo foi preparado pela assessoria técnica do Senado.
Desde a divulgação dos primeiros resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), em 2001, a Finlândia tem-se destacado como um dos países de melhor desempenho estudantil e menor desigualdade entre as escolas. Este estudo apresenta breve panorama dos principais diferenciais do sistema educacional da Finlândia e das reformas nele empreendidas nas últimas décadas. Apresenta, também, de modo sucinto, os temas e algumas das metas presentes no atual plano de desenvolvimento da educação daquele país e levanta informações preliminares, de caráter político, demográfico e socioeconômico, com vistas a contextualizar o modelo e os resultados da Finlândia no campo da educação.
Embora o sucesso dos alunos finlandeses na educação básica esteja associado a diversos fatores políticos, sociais, econômicos e culturais, além das políticas educacionais propriamente ditas, o estudo ressalta a excepcional qualidade dos docentes, associada à valorização social do magistério, como elementos-chave para os bons resultados de aprendizagem naquele país.Finlândia: características políticas e socioeconômicas
A República da Finlândia situa-se no extremo norte da Europa. O país já fez parte da Suécia e do Império Russo, tendo-se tornado independente em 1917. O Presidente da República é o Chefe de Estado, com mandato de seis anos e possibilidade de reeleição por dois mandatos consecutivos. O país é uma democracia parlamentar, em que o Chefe de Governo é o Primeiro-Ministro. O Parlamento é unicameral, com 200 representantes, eleitos em um sistema proporcional para um mandato de quatro anos. Uma nova constituição foi promulgada em 2000.
A atual Presidenta da República, Tarja Halonen, foi reeleita em janeiro de 2006, para seu segundo mandato. Ela foi a primeira mulher eleita para o cargo no país. Desde meados de 2010, a Finlândia também tem uma Primeira-Ministra, Mari Kiviniemi, a segunda mulher a ocupar essa posição naquele país.
O governo central é sediado na capital, Helsinque, e os governos locais baseados em 342 municípios, divididos em doze províncias.
A Finlândia tem cerca de 5,3 milhões de habitantes, em um território de 338.145 km2. Cerca de 95% da população tem como língua materna o finlandês. A média de filhos por família é de 1,8, e a população de crianças e adolescentes na faixa de 0 a 14 anos totaliza apenas 17% da população, percentual equivalente ao de idosos acima de 65 anos.
A economia finlandesa é altamente desenvolvida, com predominância do setor de serviços (66%). A renda per capita anual é de cerca de 34.000 euros. O índice de desenvolvimento humano é de 0,871, o que situa a Finlândia na 16a colocação no ranking do Programa Nacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Além disso, o país é bastante igualitário: o coeficiente de Gini é de 0,26, em uma escala em que 0 equivale à igualdade perfeita e 1, à desigualdade total.
3. Evolução das reformas educacionais na Finlândia
Desde a divulgação dos primeiros resultados do Pisa, em 2001, a Finlândia tem-se destacado como um dos países de melhor desempenho estudantil e menor desigualdade entre as escolas. De modo geral, as escolas finlandesas obtêm bons resultados nas avaliações do Pisa, independentemente da classe social ou da origem de seus alunos.
Segundo informações divulgadas pela Organização para a Cooperação e o Desempenho Econômico (OCDE), responsável pela coordenação do exame, as reformas que levaram à elevada qualidade da educação na Finlândia foram implementadas ao longo de quatro décadas. Trata-se, portanto, de um processo gradual e continuado, conduzido sem alarde, e não de inovações ou mudanças radicais atribuídas a determinado líder ou partido político.
O marco inicial das reformas educacionais finlandesas foi a introdução da escolarização básica de caráter público, universal e compulsório, com nove anos de duração, em 1968. Anteriormente, a maioria da população frequentava apenas seis anos de escola, equivalentes ao ensino primário. Somente aqueles que viviam nas maiores cidades tinham acesso à escolarização posterior, que se estruturava de maneira dual, dividindo-se em: escolas cívicas, com dois ou três anos de escolaridade adicional, orientadas para a qualificação profissional; e escolas ginasiais, com cinco anos de escolaridade adicional, orientadas para o ensino secundário acadêmico e, posteriormente, para os estudos universitários.
A reforma de 1968 garantiu nove anos de escolaridade compulsória para todos, dos 7 aos 16 anos de idade, sem barreiras de seleção para o acesso ao ensino pós-primário. Além disso, atribuiu a responsabilidade pela educação básica às escolas municipais, às quais se integrou a maioria das escolas privadas até então existentes. Hoje, apenas 3% dos alunos finlandeses de educação básica frequentam escolas privadas, a maioria de caráter confessional, que recebem recursos públicos e se caracterizam pela gratuidade do ensino.
A implementação da reforma ocorreu ao longo da década seguinte, atingindo os diferentes municípios de maneira paulatina.
Peça-chave na unificação da educação básica geral na Finlândia foi a construção de um novo currículo básico nacional, entre 1965 e 1970. Outro fator crucial foi o reconhecimento de que, para lograr um sistema educacional que atendesse bem a todos os alunos – independentemente de aptidões específicas, status socioeconômico ou origem familiar –, seria fundamental contar com um corpo docente altamente qualificado.
Esse reconhecimento levou à alteração dos requisitos de formação para os aspirantes à profissão do magistério. A formação inicial docente passou a ser realizada nas universidades, e não em institutos de formação de professores, com a exigência da obtenção do título de mestre para os futuros docentes de todas as etapas da educação básica e do ensino secundário. Adicionalmente, durante o período de implementação da reforma, o país desenvolveu um programa de formação em serviço especial, de caráter compulsório e intensivo para os professores em exercício em todos os municípios.
Outro efeito da reforma da educação básica foi o aumento da demanda pela educação secundária. Se, em 1970, apenas 30% dos finlandeses cursavam o ensino médio, essa proporção hoje chega a 90%. Em meados dos anos 1980, essa etapa foi reformulada, substituindo-se a estrutura acadêmica tradicional por um ensino modular de caráter mais flexível, com maior possibilidade de escolhas por parte dos alunos. Mais recentemente, o ensino médio finlandês foi novamente reformado, com o fortalecimento da educação profissional integrada e a criação de uma rede de instituições superiores politécnicas, acessível a partir do ensino médio profissionalizante, que, por sua vez, também passou a dar acesso ao ensino superior universitário.
4. Alguns diferenciais do sistema educacional finlandês
4.1 As escolas oferecem mais do que o ensino
As instituições de educação básica finlandesas oferecem mais do que o ensino convencional. Elas abrangem a oferta de uma refeição quente por dia, assistência médica e odontológica, além de apoio psicológico para todos os alunos e suas famílias, independentemente de comprovação de carência. Há também previsão de transporte escolar, mas a maioria das escolas localiza-se perto da residência dos alunos.
Os estabelecimentos de ensino são edifícios claros e acolhedores, com área de lazer externa (utilizada diariamente, independentemente do clima). O ambiente na escola caracteriza-se pelo respeito e pela cordialidade, sendo os professores chamados pelo primeiro nome.
4.2 Apoio às crianças com necessidades especiais
O país adota uma política inclusiva, em que apenas 4% dos alunos frequentam escolas especiais. As turmas costumam ser pequenas, com no máximo 20 alunos.
As escolas regulares contam com professores auxiliares dedicados aos alunos com necessidades especiais e dificuldades de aprendizagem, responsáveis por apoiar os professores de cada classe na identificação precoce desse público e por trabalhar individualmente com esses alunos, a fim de garantir seu sucesso escolar. Contam, também, com a presença de equipes multiprofissionais, compostas por psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, que acompanham de perto o desenvolvimento dos alunos e reúnem-se periodicamente com os pais e professores para discutir os encaminhamentos necessários para cada caso.
4.3 Autonomia docente e discente
Nas seis primeiras séries, os alunos têm um único professor. Somente na 7a, 8a e 9a séries da educação básica é que as classes dividem-se entre professores especializados em diferentes disciplinas. Em ambos os casos, os docentes contam com significativa autonomia e liberdade de atuação. O currículo nacional vem sendo cada vez menos detalhado e funciona mais como uma orientação geral que deixa a cargo dos docentes a escolha sobre o que e como será ensinado, incluindo os livros e materiais didáticos a serem empregados. As avaliações de larga escala são amostrais e destinam-se apenas a fornecer informações sobre o funcionamento do sistema, sem a produção de rankings ou a introdução de bônus remuneratórios.
No tocante aos alunos, o foco é na autoavaliação e na aprendizagem colaborativa e interdisciplinar. No ensino médio, cada aluno tem a prerrogativa de traçar seu próprio plano de estudos, dentro de uma estrutura modular que ultrapassa a concepção de séries anuais. Os alunos desenvolvem seu itinerário formativo nessa etapa a partir da escolha dos cursos que desejam frequentar a cada ano.
4.4 Qualificação docente
A qualidade do corpo docente finlandês tem sido apontada como o principal determinante do sucesso escolar dos alunos daquele país. A profissão docente sempre foi uma opção profissional muito respeitada na Finlândia, mas foi só após as reformas dos anos 1970 que ela passou a ser significativamente mais disputada e com exigências mais elevadas de formação. Como já mencionado, a partir de então, a formação docente passou a ser feita pelas universidades, em nível de mestrado. Os aspirantes a professores são submetidos a rigorosos exames de admissão, que incluem não apenas numerosas provas dissertativas, mas também entrevistas e atividades práticas em que se avaliam as motivações e as habilidades de comunicação interpessoal dos candidatos.
Os programas de formação docente para os professores do primário (séries 1-6) duram cinco anos e situam-se na área pedagógica, mas incluem a formação em pelo menos duas disciplinas escolares, no respectivo departamento da universidade (como matemática, língua e outras). Já os professores dos últimos anos da educação básica e do secundário concentram sua formação na disciplina que vão ministrar, mas têm que realizar grande parte dos estudos na faculdade de educação. Também é possível que um mestre em determinada disciplina, após concluir o mestrado, ingresse em um programa de um ano exclusivamente voltado para a formação como professor. Vale ressaltar que a formação docente é gratuita e os estudantes recebem uma bolsa de estudos para sua manutenção no decorrer dos estudos universitários.
Segundo a OCDE, a formação docente na Finlândia tem quatro características distintivas:
• Base em pesquisas (incluindo a exigência de apresentação de uma dissertação de mestrado e a utilização de dinâmicas de aprendizagem colaborativa voltada para a resolução de problemas concretos);
• Ênfase na abordagem pedagógica dos conteúdos disciplinares (e não em teoria ou história geral da educação);
• Treinamento para o diagnóstico e o acompanhamento de alunos com dificuldades de aprendizagem;
• Forte componente prático (incluindo extensos cursos sobre a prática didática e pelo menos um ano de estágio docente em uma escola associada à universidade).
A elevada qualidade docente é o que está por trás da grande autonomia concedida para a atuação desses profissionais e para a confiança depositada neles pela sociedade finlandesa.
4.5 Horas-aula
Curiosamente, os alunos finlandeses ficam menos tempo na escola do que os estudantes da maioria dos outros países de desempenho elevado no Pisa. Como consequência, os professores finlandeses ministram menos horas-aula do que seus pares da OCDE. Um professor das séries 7- 9, por exemplo, costuma ministrar 600 horas de aula por ano, divididas em quatro aulas de 45 minutos por dia.
Entretanto, a função docente exige muito mais do que ministrar aulas, e a docência é uma profissão de tempo integral na Finlândia. O desenvolvimento do currículo escolar e a condução de avaliações diagnósticas e formativas são tarefas cotidianas dos professores finlandeses, bem como outras atividades coletivas desenvolvidas pelo corpo técnico de cada estabelecimento de ensino.
5. Plano de Desenvolvimento da Educação e da Pesquisa na Finlândia para o período 2007-2012
O atual Plano de Desenvolvimento da Educação e da Pesquisa finlandês foi editado em dezembro de 2007 e vigorará até o final de 2012. O documento se estrutura da seguinte forma:
• Mudanças no ambiente operacional: o Globalização;
o Mudanças demográficas; o Mudanças no mundo do trabalho; o Mudanças no ambiente das crianças e adolescentes.
Prioridades de desenvolvimento: o Oportunidades iguais de educação e formação; o Qualidade da educação; o Garantia de uma força de trabalho qualificada; o Desenvolvimento da educação superior; o Os docentes como um recurso;
Desenvolvimento da educação e da pesquisa:
o Nível de educação e conhecimento;
o Acesso a uma mão de obra qualificada;
o Eficiência, taxas de permanência e educação múltipla;
o Desenvolvimento estrutural por nível de ensino; o Gestão e financiamento; o Pesquisa, desenvolvimento e inovação; o Internacionalização;
o Imigração e multiculturalismo; o Conexões entre a educação, o trabalho e a
promoção de uma educação empreendedora;
o Certificados e avaliações;
o Qualidade e avaliação;
o Desenvolvimento da educação superior, tecnológica e da pesquisa em tecnologia;
o Desenvolvimento docente; o Coesão social e cidadania ativa; o Assistência financeira aos estudantes; o Professores; o Evidências empíricas para a tomada de decisões;
o Anexos: metas para a escolaridade da população em 2015 e 2020 e metas de novos alunos por área de formação em 2012.
Como se pode depreender dessa estrutura, trata-se de uma abordagem que inclui não só metas específicas do setor educacional, mas também diagnósticos abrangentes da situação social e da realidade econômica do país, bem como visões estratégicas sobre a qualificação da população finlandesa em face das exigências do mundo do trabalho e da competitividade internacional.
Apresentamos, a seguir, algumas metas quantitativas de destaque no plano finlandês:
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível secundário para 92,5% em 2015 e 95% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível secundário para 85% em 2015 e 90% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 20 a 24 anos que toma parte nos exames de admissão para a educação superior ou tecnológica para 52% em 2015 e 53% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos que toma parte nos exames de admissão à educação superior ou tecnológica para 49% em 2015 e 52% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos que toma parte nos exames de admissão à educação superior ou tecnológica para 41% em 2015 e 45% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível superior para 38,5% em 2015 e 42% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível superior para 25% em 2015 e 30% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível superior ou profissional para 83,5% em 2015 e 88% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível superior ou profissional para 77% em 2015 e 81% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível de pós-graduação para 0,8% em 2015 e 1% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 35 a 39 anos com formação em nível de pós-graduação para 1,4% em 2015 e 1,7% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível de pós-graduação para 1,2% em 2015 e 1,5% em 2020;
• Elevar o percentual de investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento (P&D) para 4% do produto interno bruto (PIB) durante a duração do plano;
• Elevar para 20% o percentual de doutores entre os pesquisadores em atividade no país.
Além dessas, ao longo do plano, são apresentadas inúmeras metas de caráter qualitativo e de gestão, relacionadas a cada capítulo e seção do documento. Transparece, em todas elas, a noção de que a educação tem papel de destaque na Finlândia e de que o país pretende assegurar uma posição vantajosa para seus cidadãos na sociedade global do conhecimento.
6. Considerações finais
Como em todos os sistemas educacionais de alto desempenho, o sucesso da Finlândia está associado a diversos fatores políticos, sociais, econômicos e culturais, além da estrutura da educação escolar propriamente dita. Nesse sentido, as diferenças entre o Brasil e a Finlândia nunca podem ser perdidas de vista em qualquer tentativa de comparação.
De todo modo, o fator que sobressai nas análises do sucesso educacional daquele país é a qualidade excepcional do seu corpo docente. A Finlândia logrou transformar a carreira do magistério em uma das mais concorridas e desejadas pelos jovens. Somam-se a isso os rigorosos processos seletivos que fazem com que só os jovens mais talentosos sejam recrutados para a atividade docente.
A remuneração dos profissionais docentes é importante, mas é preciso dizer que os professores finlandeses não são os profissionais mais bem-remunerados naquele país. Mesmo em perspectiva comparada, estudos apontam que a média salarial dos docentes na Finlândia situa-se um pouco abaixo da média da OCDE, em termos de percentual do PIB per capita, e significativamente abaixo de países como a Coréia, Cingapura ou Alemanha.
As estratégias de recrutamento, a formação inicial e o prestígio social parecem ser os elementos-chave da valorização docente na Finlândia. E o fator humano, consubstanciado na qualidade dos professores, parece ser o principal fator associado aos bons resultados de aprendizagem dos alunos finlandeses.
ReferênciasDesde a divulgação dos primeiros resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), em 2001, a Finlândia tem-se destacado como um dos países de melhor desempenho estudantil e menor desigualdade entre as escolas. Este estudo apresenta breve panorama dos principais diferenciais do sistema educacional da Finlândia e das reformas nele empreendidas nas últimas décadas. Apresenta, também, de modo sucinto, os temas e algumas das metas presentes no atual plano de desenvolvimento da educação daquele país e levanta informações preliminares, de caráter político, demográfico e socioeconômico, com vistas a contextualizar o modelo e os resultados da Finlândia no campo da educação.
Embora o sucesso dos alunos finlandeses na educação básica esteja associado a diversos fatores políticos, sociais, econômicos e culturais, além das políticas educacionais propriamente ditas, o estudo ressalta a excepcional qualidade dos docentes, associada à valorização social do magistério, como elementos-chave para os bons resultados de aprendizagem naquele país.Finlândia: características políticas e socioeconômicas
A República da Finlândia situa-se no extremo norte da Europa. O país já fez parte da Suécia e do Império Russo, tendo-se tornado independente em 1917. O Presidente da República é o Chefe de Estado, com mandato de seis anos e possibilidade de reeleição por dois mandatos consecutivos. O país é uma democracia parlamentar, em que o Chefe de Governo é o Primeiro-Ministro. O Parlamento é unicameral, com 200 representantes, eleitos em um sistema proporcional para um mandato de quatro anos. Uma nova constituição foi promulgada em 2000.
A atual Presidenta da República, Tarja Halonen, foi reeleita em janeiro de 2006, para seu segundo mandato. Ela foi a primeira mulher eleita para o cargo no país. Desde meados de 2010, a Finlândia também tem uma Primeira-Ministra, Mari Kiviniemi, a segunda mulher a ocupar essa posição naquele país.
O governo central é sediado na capital, Helsinque, e os governos locais baseados em 342 municípios, divididos em doze províncias.
A Finlândia tem cerca de 5,3 milhões de habitantes, em um território de 338.145 km2. Cerca de 95% da população tem como língua materna o finlandês. A média de filhos por família é de 1,8, e a população de crianças e adolescentes na faixa de 0 a 14 anos totaliza apenas 17% da população, percentual equivalente ao de idosos acima de 65 anos.
A economia finlandesa é altamente desenvolvida, com predominância do setor de serviços (66%). A renda per capita anual é de cerca de 34.000 euros. O índice de desenvolvimento humano é de 0,871, o que situa a Finlândia na 16a colocação no ranking do Programa Nacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Além disso, o país é bastante igualitário: o coeficiente de Gini é de 0,26, em uma escala em que 0 equivale à igualdade perfeita e 1, à desigualdade total.
3. Evolução das reformas educacionais na Finlândia
Desde a divulgação dos primeiros resultados do Pisa, em 2001, a Finlândia tem-se destacado como um dos países de melhor desempenho estudantil e menor desigualdade entre as escolas. De modo geral, as escolas finlandesas obtêm bons resultados nas avaliações do Pisa, independentemente da classe social ou da origem de seus alunos.
Segundo informações divulgadas pela Organização para a Cooperação e o Desempenho Econômico (OCDE), responsável pela coordenação do exame, as reformas que levaram à elevada qualidade da educação na Finlândia foram implementadas ao longo de quatro décadas. Trata-se, portanto, de um processo gradual e continuado, conduzido sem alarde, e não de inovações ou mudanças radicais atribuídas a determinado líder ou partido político.
O marco inicial das reformas educacionais finlandesas foi a introdução da escolarização básica de caráter público, universal e compulsório, com nove anos de duração, em 1968. Anteriormente, a maioria da população frequentava apenas seis anos de escola, equivalentes ao ensino primário. Somente aqueles que viviam nas maiores cidades tinham acesso à escolarização posterior, que se estruturava de maneira dual, dividindo-se em: escolas cívicas, com dois ou três anos de escolaridade adicional, orientadas para a qualificação profissional; e escolas ginasiais, com cinco anos de escolaridade adicional, orientadas para o ensino secundário acadêmico e, posteriormente, para os estudos universitários.
A reforma de 1968 garantiu nove anos de escolaridade compulsória para todos, dos 7 aos 16 anos de idade, sem barreiras de seleção para o acesso ao ensino pós-primário. Além disso, atribuiu a responsabilidade pela educação básica às escolas municipais, às quais se integrou a maioria das escolas privadas até então existentes. Hoje, apenas 3% dos alunos finlandeses de educação básica frequentam escolas privadas, a maioria de caráter confessional, que recebem recursos públicos e se caracterizam pela gratuidade do ensino.
A implementação da reforma ocorreu ao longo da década seguinte, atingindo os diferentes municípios de maneira paulatina.
Peça-chave na unificação da educação básica geral na Finlândia foi a construção de um novo currículo básico nacional, entre 1965 e 1970. Outro fator crucial foi o reconhecimento de que, para lograr um sistema educacional que atendesse bem a todos os alunos – independentemente de aptidões específicas, status socioeconômico ou origem familiar –, seria fundamental contar com um corpo docente altamente qualificado.
Esse reconhecimento levou à alteração dos requisitos de formação para os aspirantes à profissão do magistério. A formação inicial docente passou a ser realizada nas universidades, e não em institutos de formação de professores, com a exigência da obtenção do título de mestre para os futuros docentes de todas as etapas da educação básica e do ensino secundário. Adicionalmente, durante o período de implementação da reforma, o país desenvolveu um programa de formação em serviço especial, de caráter compulsório e intensivo para os professores em exercício em todos os municípios.
Outro efeito da reforma da educação básica foi o aumento da demanda pela educação secundária. Se, em 1970, apenas 30% dos finlandeses cursavam o ensino médio, essa proporção hoje chega a 90%. Em meados dos anos 1980, essa etapa foi reformulada, substituindo-se a estrutura acadêmica tradicional por um ensino modular de caráter mais flexível, com maior possibilidade de escolhas por parte dos alunos. Mais recentemente, o ensino médio finlandês foi novamente reformado, com o fortalecimento da educação profissional integrada e a criação de uma rede de instituições superiores politécnicas, acessível a partir do ensino médio profissionalizante, que, por sua vez, também passou a dar acesso ao ensino superior universitário.
4. Alguns diferenciais do sistema educacional finlandês
4.1 As escolas oferecem mais do que o ensino
As instituições de educação básica finlandesas oferecem mais do que o ensino convencional. Elas abrangem a oferta de uma refeição quente por dia, assistência médica e odontológica, além de apoio psicológico para todos os alunos e suas famílias, independentemente de comprovação de carência. Há também previsão de transporte escolar, mas a maioria das escolas localiza-se perto da residência dos alunos.
Os estabelecimentos de ensino são edifícios claros e acolhedores, com área de lazer externa (utilizada diariamente, independentemente do clima). O ambiente na escola caracteriza-se pelo respeito e pela cordialidade, sendo os professores chamados pelo primeiro nome.
4.2 Apoio às crianças com necessidades especiais
O país adota uma política inclusiva, em que apenas 4% dos alunos frequentam escolas especiais. As turmas costumam ser pequenas, com no máximo 20 alunos.
As escolas regulares contam com professores auxiliares dedicados aos alunos com necessidades especiais e dificuldades de aprendizagem, responsáveis por apoiar os professores de cada classe na identificação precoce desse público e por trabalhar individualmente com esses alunos, a fim de garantir seu sucesso escolar. Contam, também, com a presença de equipes multiprofissionais, compostas por psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, que acompanham de perto o desenvolvimento dos alunos e reúnem-se periodicamente com os pais e professores para discutir os encaminhamentos necessários para cada caso.
4.3 Autonomia docente e discente
Nas seis primeiras séries, os alunos têm um único professor. Somente na 7a, 8a e 9a séries da educação básica é que as classes dividem-se entre professores especializados em diferentes disciplinas. Em ambos os casos, os docentes contam com significativa autonomia e liberdade de atuação. O currículo nacional vem sendo cada vez menos detalhado e funciona mais como uma orientação geral que deixa a cargo dos docentes a escolha sobre o que e como será ensinado, incluindo os livros e materiais didáticos a serem empregados. As avaliações de larga escala são amostrais e destinam-se apenas a fornecer informações sobre o funcionamento do sistema, sem a produção de rankings ou a introdução de bônus remuneratórios.
No tocante aos alunos, o foco é na autoavaliação e na aprendizagem colaborativa e interdisciplinar. No ensino médio, cada aluno tem a prerrogativa de traçar seu próprio plano de estudos, dentro de uma estrutura modular que ultrapassa a concepção de séries anuais. Os alunos desenvolvem seu itinerário formativo nessa etapa a partir da escolha dos cursos que desejam frequentar a cada ano.
4.4 Qualificação docente
A qualidade do corpo docente finlandês tem sido apontada como o principal determinante do sucesso escolar dos alunos daquele país. A profissão docente sempre foi uma opção profissional muito respeitada na Finlândia, mas foi só após as reformas dos anos 1970 que ela passou a ser significativamente mais disputada e com exigências mais elevadas de formação. Como já mencionado, a partir de então, a formação docente passou a ser feita pelas universidades, em nível de mestrado. Os aspirantes a professores são submetidos a rigorosos exames de admissão, que incluem não apenas numerosas provas dissertativas, mas também entrevistas e atividades práticas em que se avaliam as motivações e as habilidades de comunicação interpessoal dos candidatos.
Os programas de formação docente para os professores do primário (séries 1-6) duram cinco anos e situam-se na área pedagógica, mas incluem a formação em pelo menos duas disciplinas escolares, no respectivo departamento da universidade (como matemática, língua e outras). Já os professores dos últimos anos da educação básica e do secundário concentram sua formação na disciplina que vão ministrar, mas têm que realizar grande parte dos estudos na faculdade de educação. Também é possível que um mestre em determinada disciplina, após concluir o mestrado, ingresse em um programa de um ano exclusivamente voltado para a formação como professor. Vale ressaltar que a formação docente é gratuita e os estudantes recebem uma bolsa de estudos para sua manutenção no decorrer dos estudos universitários.
Segundo a OCDE, a formação docente na Finlândia tem quatro características distintivas:
• Base em pesquisas (incluindo a exigência de apresentação de uma dissertação de mestrado e a utilização de dinâmicas de aprendizagem colaborativa voltada para a resolução de problemas concretos);
• Ênfase na abordagem pedagógica dos conteúdos disciplinares (e não em teoria ou história geral da educação);
• Treinamento para o diagnóstico e o acompanhamento de alunos com dificuldades de aprendizagem;
• Forte componente prático (incluindo extensos cursos sobre a prática didática e pelo menos um ano de estágio docente em uma escola associada à universidade).
A elevada qualidade docente é o que está por trás da grande autonomia concedida para a atuação desses profissionais e para a confiança depositada neles pela sociedade finlandesa.
4.5 Horas-aula
Curiosamente, os alunos finlandeses ficam menos tempo na escola do que os estudantes da maioria dos outros países de desempenho elevado no Pisa. Como consequência, os professores finlandeses ministram menos horas-aula do que seus pares da OCDE. Um professor das séries 7- 9, por exemplo, costuma ministrar 600 horas de aula por ano, divididas em quatro aulas de 45 minutos por dia.
Entretanto, a função docente exige muito mais do que ministrar aulas, e a docência é uma profissão de tempo integral na Finlândia. O desenvolvimento do currículo escolar e a condução de avaliações diagnósticas e formativas são tarefas cotidianas dos professores finlandeses, bem como outras atividades coletivas desenvolvidas pelo corpo técnico de cada estabelecimento de ensino.
5. Plano de Desenvolvimento da Educação e da Pesquisa na Finlândia para o período 2007-2012
O atual Plano de Desenvolvimento da Educação e da Pesquisa finlandês foi editado em dezembro de 2007 e vigorará até o final de 2012. O documento se estrutura da seguinte forma:
• Mudanças no ambiente operacional: o Globalização;
o Mudanças demográficas; o Mudanças no mundo do trabalho; o Mudanças no ambiente das crianças e adolescentes.
Prioridades de desenvolvimento: o Oportunidades iguais de educação e formação; o Qualidade da educação; o Garantia de uma força de trabalho qualificada; o Desenvolvimento da educação superior; o Os docentes como um recurso;
Desenvolvimento da educação e da pesquisa:
o Nível de educação e conhecimento;
o Acesso a uma mão de obra qualificada;
o Eficiência, taxas de permanência e educação múltipla;
o Desenvolvimento estrutural por nível de ensino; o Gestão e financiamento; o Pesquisa, desenvolvimento e inovação; o Internacionalização;
o Imigração e multiculturalismo; o Conexões entre a educação, o trabalho e a
promoção de uma educação empreendedora;
o Certificados e avaliações;
o Qualidade e avaliação;
o Desenvolvimento da educação superior, tecnológica e da pesquisa em tecnologia;
o Desenvolvimento docente; o Coesão social e cidadania ativa; o Assistência financeira aos estudantes; o Professores; o Evidências empíricas para a tomada de decisões;
o Anexos: metas para a escolaridade da população em 2015 e 2020 e metas de novos alunos por área de formação em 2012.
Como se pode depreender dessa estrutura, trata-se de uma abordagem que inclui não só metas específicas do setor educacional, mas também diagnósticos abrangentes da situação social e da realidade econômica do país, bem como visões estratégicas sobre a qualificação da população finlandesa em face das exigências do mundo do trabalho e da competitividade internacional.
Apresentamos, a seguir, algumas metas quantitativas de destaque no plano finlandês:
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível secundário para 92,5% em 2015 e 95% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível secundário para 85% em 2015 e 90% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 20 a 24 anos que toma parte nos exames de admissão para a educação superior ou tecnológica para 52% em 2015 e 53% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos que toma parte nos exames de admissão à educação superior ou tecnológica para 49% em 2015 e 52% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos que toma parte nos exames de admissão à educação superior ou tecnológica para 41% em 2015 e 45% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível superior para 38,5% em 2015 e 42% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível superior para 25% em 2015 e 30% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível superior ou profissional para 83,5% em 2015 e 88% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível superior ou profissional para 77% em 2015 e 81% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 34 anos com formação em nível de pós-graduação para 0,8% em 2015 e 1% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 35 a 39 anos com formação em nível de pós-graduação para 1,4% em 2015 e 1,7% em 2020;
• Elevar o percentual da população de 25 a 64 anos com formação em nível de pós-graduação para 1,2% em 2015 e 1,5% em 2020;
• Elevar o percentual de investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento (P&D) para 4% do produto interno bruto (PIB) durante a duração do plano;
• Elevar para 20% o percentual de doutores entre os pesquisadores em atividade no país.
Além dessas, ao longo do plano, são apresentadas inúmeras metas de caráter qualitativo e de gestão, relacionadas a cada capítulo e seção do documento. Transparece, em todas elas, a noção de que a educação tem papel de destaque na Finlândia e de que o país pretende assegurar uma posição vantajosa para seus cidadãos na sociedade global do conhecimento.
6. Considerações finais
Como em todos os sistemas educacionais de alto desempenho, o sucesso da Finlândia está associado a diversos fatores políticos, sociais, econômicos e culturais, além da estrutura da educação escolar propriamente dita. Nesse sentido, as diferenças entre o Brasil e a Finlândia nunca podem ser perdidas de vista em qualquer tentativa de comparação.
De todo modo, o fator que sobressai nas análises do sucesso educacional daquele país é a qualidade excepcional do seu corpo docente. A Finlândia logrou transformar a carreira do magistério em uma das mais concorridas e desejadas pelos jovens. Somam-se a isso os rigorosos processos seletivos que fazem com que só os jovens mais talentosos sejam recrutados para a atividade docente.
A remuneração dos profissionais docentes é importante, mas é preciso dizer que os professores finlandeses não são os profissionais mais bem-remunerados naquele país. Mesmo em perspectiva comparada, estudos apontam que a média salarial dos docentes na Finlândia situa-se um pouco abaixo da média da OCDE, em termos de percentual do PIB per capita, e significativamente abaixo de países como a Coréia, Cingapura ou Alemanha.
As estratégias de recrutamento, a formação inicial e o prestígio social parecem ser os elementos-chave da valorização docente na Finlândia. E o fator humano, consubstanciado na qualidade dos professores, parece ser o principal fator associado aos bons resultados de aprendizagem dos alunos finlandeses.
AUGUSTE, Byron; KIHN, Paul; MILLER, Matt. Closing the talent gap: attracting and retaining top-third graduates to careers in teaching. An international and market research-based perspective. McKinsey & Company, 2010.
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MINISTRY OF EDUCATION. Education and research: 2007-2012 Development Plan. Disponível em http://www.minedu.fi/export/sites/default/OPM/Julkaisut/2008/liitteet/opm 11.pdf
EMBAIXADA DA FINLÂNDIA. Info Finlândia. Disponível em http://www.finlandia.org.br/public/default.aspx? nodeid=36443&contentlan=17&culture=pt-BR
Consultoria Legislativa, 15 de julho de 2011.
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